Cineminha

Light, Astronomy and Cinema. Credits: Felipe Carrelli / GalileoMobile

Luz, astronomia e cinema. Creditos: Felipe Carrelli / GalileoMobile

by Felipe Carrelli

“Quando sinto uma terrível necessidade de religião, saio à noite para pintar as estrelas”. – Vincent Van Gogh

A luz é a matéria bruta tanto na astronomia quanto no cinema. O cinema é a arte de manipular a luz. Fotografar é pintar com a luz.

Os povos antigos olhavam para o céu anoite, conectavam as estrelas e viam objetos, animais, pessoas, seres mitológicos. Das chamadas constelações, criavam
histórias, contos, fábulas, mitos… Eles faziam cinema com as estrelas.

Talvez não por acaso a câmera cinematográfica nasce a partir da experiência de um astrônomo. Na segunda metade do ciclo XIX, Pierre Jules César Jansse queria determinar com exatidão a distância que separava a Terra do Sol. Para isso ele resolveu utilizar um evento astronômico: a passagem de Vênus em frente ao Sol. Foi organizada uma expedição onde diversos astrônomos fariam a medição desde diferentes pontos do planeta terra.

No entanto havia um problema, para que o método tivesse êxito todos os observadores deveriam determinar com exatidão o inicio e o final dessa passagem. Para Janssen, a única maneira de eliminar a subjetividade do processo era registrar os instantes inicial e final dessa passagem com uma série continua de fotografias tomadas a intervalos regulares e em instantes de tempo conhecidos: a cronofotografia.

Como na época não existia tal instrumento, Janssen resolveu criar um e realizou assim o “primeiro time-lapse” de todos os tempos.

No dia 6 de Julho de 1874, meses antes da expedição, Janssen apresentou orgulhoso sua invenção (batizada por ele mesmo como “Revolver Fotográfico”) aos membros da Academia das Ciências de Paris. Janssen ainda não sabia, mas acabava de inventar o primeiro antecessor da câmera de cinema que seria apresentada pela primeira vez pelos Irmãos Lumière em 1895, apenas vinte e um anos depois.

Um filme nada mais é que uma série de 24 fotos por segundo, e por causa de um fenômeno chamado persistência retiniana, temos a impressão de movimento. Persistência retiniana designa o fenómeno ou a ilusão provocada quando um objeto visto pelo olho humano persiste na retina por uma fracção de segundo após a sua
percepção. Assim, imagens projetadas a um ritmo superior a 16 por segundo associam-se na retina sem interrupção.

BraBo Expedition logo. Credits: Felipe Carrelli / GalileoMobile

BraBo Expedition logo. Credits: Felipe Carrelli / GalileoMobile

35 dias, 12 cidades e mais de 3 mil quilômetros percorridos. Esses são os números da expedição BraBo do projeto Galileo Mobile que percorreu a região de
Pando na Bolívia e os estados do Acre e Rondônia no Brasil entre Julho e Agosto de 2014. Duas semanas depois, como um filme, essa experiência ainda persiste
viva na minha retina.

Foi a primeira vez que fiz uma viagem tão longa e tão intensa. Com a inestimável colaboração da minha amiga-irmã Fernanda Ligabue (a Fer!) fizemos o que parecia
impossível: gravar um documentário de longa metragem com a equipe de duas pessoas. Durante o processo ainda tivemos a ajuda do querido Jorrrge, que merece
o Oscar de melhor assistente de direção do mundo.

Fernanda e Felipe. Creditos: Felipe Carrelli / GalileoMobile

Fernanda e Felipe. Creditos: Felipe Carrelli / GalileoMobile

Mas foi muito mais fácil do que parecia. A luz já estava toda montada, bastava a gente saber pra onde apontar a câmera. Toda a produção já tinha sido cuidadosamente pensada e elaborada pelos Galileos: o percurso que faríamos, as escolas que visitaríamos, os colaboradores que nos ajudariam durante o caminho… Foram mais de 70 horas de material gravado: vários planões, lugares lindos, pessoas incríveis e entrevistas inesquecíveis.

Mas como esquecer? 35 dias atrás da câmera, pensando em 24 frames por segundo, vendo em 16×9, sonhando em imagens com uma bolinha vermelha de REC em cima.

Sempre me fascinou o fato de que, quando estou gravando através da câmera, a minha memória será a própria imagem que estou produzindo. Ou seja, depois da
viagem a memória imagética que tenho daquele momento especifico é a própria imagem que gravei.

On the Bay Lake, Bolivia. Credits: Mayte Vasquez / GalileoMobile

Lago Bay, Bolivia. Creditos: Mayte Vasquez / GalileoMobile

Essa sensação me vem a todo momento agora, semanas depois do final da expedição, revendo as imagens na ilha de edição. As vezes é como se eu pudesse
ainda sentir o cheiro de cada lugar, a temperatura, a umidade… É minha experiência eternizada em imagens.

E a experiência não poderia ter sido melhor. Foi um privilégio ter a oportunidade de trabalhar ao lado de pessoas tão integras e apaixonadas com o que fazem. Foi um presente da vida realmente.

Difícil escolher algum momento especial pra descrever. Foram inúmeros. Felizmente o Jooorge me passou a tarefa de escrever sobre as atividades de cineclube que realizamos durante o Brabo.

A proposta do cineclube era trazer curtas metragens alternativos com uma temática relacionada a astronomia. Apos cada sessão, propúnhamos aos espectadores uma discussão e reflexão sobre os filmes. A ideia era aprofundar a discussão levantada durante as atividades realizadas pela comunidade através de uma experiência mais lúdica, que é o cinema.

Cine-club in Cobija, Bolivia. Credits: Mayte Vasquez / GalileoMobile

Cine-club em Cobija, Bolivia. Creditos: Mayte Vasquez / GalileoMobile

Não existe o certo ou errado na interpretação de um filme, pelo contrário, as opiniões distintas sempre trazem debates e muitas vezes permitem ao espectador olhar o filme de uma perspectiva distinta.

As sessões foram muito participativas. Em uma realizada em Cobija (Bolivia), onde não existe cinema na cidade, o pessoal pediu até um bis! E passamos os filmes novamente. Em Cruzeiro do Sul (Acre – Brasil), realizamos uma sessão ao céu aberto, sob o luar e as estrelas, e o debate foi bem interessante com a participação intensa dos espectadores.

Nos últimos dias do Brabo, durante a visita a comunidade indígena Surui em Cacoal (Rondonia – Brasil), resolvemos fazer uma atividade diferente. Realizamos uma sessão de “cineminha”. Essa brincadeira aprendi com o cineasta Zé Pintor de São Carlos (interior de São Paulo – Brasil) e é muito simples.

Primeiro cria-se uma história. Depois recortamos figuras que possam ilustrar essa história. No nosso caso eram personagem relacionados à astronomia como lua, sol, astronauta, foguete, etc. Por ultimo falta só criar o cinema: cortamos o fundo de uma caixa de papelão, forramos com papel manteiga e com a ajuda de uma lanterna e velas projetamos as sombras dos recortes no papel manteiga.

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Colocamos o cineminha perto da fogueira, a Fer fez pipoca e chamamos a comunidade pra assistir. A historia foi meio improvisada na hora. Enquanto eu mexia os bonequinhos a Pati e o Edu narravam as peripécias do astrônomo (narrado pelo Nuno) que resolve construir um foguete com a ajuda de seu amigo Surui (narrado por Oyamatan, morador da comunidade). Juntos os dois conheciam os planetas, estrelas, constelações e galáxias.

A improvisação e o caráter artesanal deram um tom cômico e a galera se divertiu muito. Ao final realizamos a observação do céu com os telescópios, enquanto conversávamos em volta da fogueira. O final emocionante para uma viagem emocionante.

Duas semanas depois, a expedição tão viva começa a virar uma memória gostosa em meio aos afazeres cotidianos na equipe que se foi e na comunidade que ficou.

Não para mim. Eu ainda continuo nessa viagem por mais uns três ou quatro meses, assistindo novamente as imagens e editando o documentário. Agora meu trabalho é
ser Mágico e o truque é transformar 70 horas de material em 1h30 de filme. Mas confesso que a parte mais difícil não é essa. A parte mais difícil é assistir e não poder estar lá.

Mas quando sinto essa saudade, saio lá fora e olho as estrelas, e sei que meus amigos estão em algum lugar olhando pra elas também.

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One thought on “Cineminha

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